Embora os Metodistas atraíssem grandes multidões, sua sobrevivência dependia da disciplina de pequenos grupos.
Quando o movimento metodista começou a crescer, John Wesley enfrentou o problema de lidar com convertidos que voltavam aos seus antigos hábitos.
Muitos vinham de classes sociais mais baixas, não tendo, assim, nada que os ajudasse a viver “sóbrias, tranquilas e abençoadas vidas”, como Wesley prescrevia.
A apostasia do membro (abandono da Palavra de Deus, da fé em Deus) desencorajava aqueles que estavam tentando seguir a Cristo e também dava munição aos detratores do metodismo.
A solução para esse problema veio de uma forma inesperada. Os metodistas tinham contraído uma dívida para construir uma casa de pregações. Em um esforço para pagá-la, os líderes, voluntariamente, visitavam cada metodista para recolher um pennie, todas as semanas.
Perceberam que seria mais fácil as pessoas irem até os líderes, surgindo, então, as reuniões de classes, que além de recolherem os pennies, assumiram caráter mais pastoral do que financeiro.
Os líderes recolhiam os pennies, instruíam os membros e checavam o seu progresso espiritual.
Wesley convenceu-se que esta prática não poderia prosperar sem disciplina. O Metodismo prosperou com a disciplina cristã, alcançando um milhão de pessoas antes da morte de Wesley. A disciplina cristã funcionava por meio de quatro grandes estratégias: 1) ele a pregava; 2) ele ensinava seus líderes leigos a administrá-la amorosamente; 3) organizou as pessoas em grupos pequenos, nos quais elas podiam cuidar umas das outras; 4) ele propagava os benefícios da obediência ao Senhor.
Wesley frequentemente pregava um sermão sobre Mateus 18, a passagem na qual Jesus descreveu os passos a serem dados quando da descoberta de pecado em um irmão. Ele disse que a advertência, para começar o processo de disciplina cristã, não era uma sugestão, mas um “comando direto de Deus”. “Este é o caminho, entrem por ele!”.
Ensinando sobre l Co 5, quando Paulo fala à congregação para lançar fora o homem imoral, Wesley comentou que a congregação tinha a responsabilidade de libertar a si mesma do homem impenitente, porque “um pecado, ou um pecador ... difunde culpa e infecção por toda a congregação.”
Lembrou a seus seguidores que a Igreja Primitiva praticava a disciplina. Dizia que era um dito comum entre os cristãos das Igrejas Primitivas: “a alma e o corpo fazem o homem, o espírito e a disciplina fazem um cristão”. Sem a ajuda da disciplina cristã ninguém pode ser realmente um Cristão.
A Igreja precisa de disciplina, pois sem ela não pode haver um verdadeiro cristianismo. “Onde quer que a disciplina não faça parte da doutrina, ela não tem pleno efeito sobre os ouvintes”.
Wesley vivia uma vida disciplinada e conclamava outros metodistas a viverem segundo o mesmo padrão. Pregava o Metodismo para os camponeses céticos. Mantê-los na linha e comportados era muito difícil e dependia dos líderes das classes para manter a ordem nos intervalos de suas visitas.
Durante uma de suas visitas a Bristol, ele excomungou quase 20% da sociedade, por pecados como bebedeira, práticas desonestas nos negócios, fofoca, roubo, discussões em público e trapaça no pagamento dos impostos e taxas.
Mais tarde, quando ele encontrou um grupo inteiro de metodistas cujo comportamento estava abaixo dos padrões, ele disse a eles, em termos diretos e claros, que eram os “mais ignorantes, soberbos, autoconfiantes, inconstantes, intratáveis, desunidos metodistas que eu conheci em três reinos”. Evidentemente, o grupo ouviu bem, pois Wesley relatou que “muitos foram tocados e nem um ficou ofendido”.
Tudo o que ele aprendia por meio da sua experiência na administração da disciplina, ele passava para sermões como “O dever de repreender nosso vizinho e A cura das más línguas”.
A chave para o sucesso em um caso de aplicação da disciplina cristã para Wesley, era o espírito daquele que expunha o pecado.
Como se dependia muito de um espírito correto, aquele que fosse repreender deveria primeiro pedir que o Senhor “guardasse seu coração, iluminasse sua mente e dirigisse sua língua”. O servo do Senhor deve “evitar qualquer coisa no olhar, no gesto, na palavra e no tom de voz que pudesse demonstrar orgulho ou autossuficiência”. Acima de tudo, o amor deve ser o motivo para a disciplina. Citando um hino de seu irmão, Wesley disse:.
O amor pode dobrar o pescoço que não se curva,
Tornar em carne o coração de pedra;
Amaciar, derreter, quebrar e perfurar um coração rígido.
Algumas vezes, essa abordagem gentil era bem sucedida, mas, em outras, como Wesley notou, a reprovação “terna e moderada” não tinha efeito. Em tais casos, um ou dois precisariam ir junto com aquele que já havia ido, primeiro expressando o seu amor pelo irmão errante, então apresentando os fatos de seu pecado e, finalmente, exortando-o a se arrepender.
Caso essa segunda tentativa falhasse, ele aconselhava os cristãos a levarem o assunto à Igreja. Tornava-se responsabilidade do ministro repreender o pecador e, se necessário, colocá-lo para fora da comunidade.
Wesley dizia a seus ouvintes que o problema estava, então, fora de suas mãos, “tendo vocês, feito tudo, conforme a Palavra de Deus, ou a Lei do Amor, vocês estão isentos; vocês não são cúmplices do seu pecado [do pecador], e, se ele perecer, o seu sangue pesará sobre sua própria cabeça”.
A ênfase na disciplina com ternura não evitou que, por vezes, Wesley ficasse cego. Quando seu braço direito, Thomas Maxfield, começou a se autoproclamar imune ao pecado e que ninguém poderia ensiná-lo mais coisa alguma, Wesley escreveu uma carta afirmando o que apreciava e o que desaprovava no ministério de Maxfield:
“Sem prefácio ou cerimônia, que são desnecessários entre nós, eu vou simples e diretamente dizer a você o que eu desaprovo em sua doutrina, espírito ou comportamento público”...
“Quanto ao seu espírito, eu apreciava sua confiança em Deus e o seu zelo pela salvação das almas. Mas, eu desaprovo algo que tem a aparência do orgulho, de uma super autoavaliação e subestimação dos outros, particularmente os outros pregadores”.
Wesley esperava que os outros ministros fossem tão claros e diretos quanto ele, com qualquer pessoa, da mesma forma que ele agia com eles: “diga a qualquer um o que você pensa o que está errado nele, tão direta e brevemente quanto possível, então isso vai chegar ao seu coração. Faça todo o possível para expulsar o fogo do coração de seu amigo”.
Confessando uns aos outros
Wesley tinha condições de praticar o que pregava sobre disciplina cristã porque ele tinha organizado os seus seguidores em pequenos grupos. Uma sociedade metodista incluía todos os metodistas de uma área. Ela era dividida em grupos, ou classes, de 12 pessoas. As pessoas se reuniam semanalmente para estudar a Bíblia, orar e testemunhar sobre o estado de suas almas.
Cada classe tinha um líder, que se reportava ao pregador encarregado da sociedade. Wesley publicou uma lista de questões para os líderes das classes ajudarem os membros a se autoexaminarem:
1 – Quais dos pecados conhecidos você cometeu desde a nossa última reunião?
2 – Quais tentações você superou?
3 – Como Deus falou com você? 4 – Você teve algum pensamento, palavra ou ato que possa ser pecaminoso?
Quando as respostas revelavam pecados, os infratores tinham uma outra chance. “Se eles abandonassem os seus pecados”, Wesley dizia, “nós os receberemos com alegria; se eles obstinadamente persistirem no pecado, fica claro que eles não são como um de nós. Os outros devem, então, lamentar e orar por eles, e se regozijarem, porque até onde vai nosso ponto de vista, o escândalo terá sido afastado para longe da sociedade”.
Como os líderes conheciam cada membro das classes intimamente, eles podiam adaptar as suas palavras para a necessidade individual de cada um. As reuniões frequentes significavam que as atitudes erradas podiam ser
interrompidas antes de se transformarem em atos pecaminosos. Nesse contexto de contato constante, pessoal e amoroso, a disciplina cristã era uma força redentora muito forte.
“Faça o certo e nada temas”
Embora a disciplina cristã tenha rendido resultados tão positivos, os líderes metodistas nem sempre ansiavam por exercê-la. Ao longo de sua carreira, Wesley teve que admoestar seus representantes a examinarem as sociedades e a expelirem os que desobedeciam as regras.
Nessa linha, ele escreveu para Adam Clarke: “seja exato em cada ponto da disciplina”. Para Francis Asbury, ele defendeu “uma estrita atenção à disciplina”.
Para William Holmes, quem chegou temer perder a sua congregação, ele mandou a ordem “faça o certo e nada temas. Exclua cada pessoa que não prometa se reunir com uma classe, os líderes, em particular. Eu requeiro que você faça isso. Você não tem escolha. Deixe as consequências para Deus”.
Wesley sabia que a disciplina cristã poderia trazer divisão às comunidades. Ele, contudo, ordenou que um de seus assistentes removesse um líder faltoso: “Eu solicito que você o coloque fora da nossa sociedade. Se 20 da classe dele também resolvam deixar a sociedade, assim seja. A primeira perda é melhor. Melhor que se percam 40 membros a perder-se a nossa disciplina”.
No final de seu ministério, Wesley preocupava-se em fazer com que a disciplina cristã permanecesse forte, porque ele sabia que, sem acompanhamento, todo o seu trabalho seria perdido. Uma viagem ao país de Gales, em 1763, fez com que ele fizesse o seguinte alerta para as futuras gerações de metodistas:
“Eu estou mais convencido do que nunca de que pregar como um Apóstolo, sem reunir aqueles que são despertados e treiná-los nos caminhos de Deus, é como conduzir crianças para serem assassinadas. Quanta pregação foi feita, por mais de 20 anos, em toda a Pembrokeshire? Mas não foram criadas sociedades regulares, não houve disciplina, ordem ou conexão; e a consequência é de que nove entre dez daqueles que um dia foram despertados estão agora mais adormecidos do que nunca!
Charles Edward White