terça-feira, 28 de dezembro de 2010

SE TEU IRMÃO CHEGAR A PECAR

No Evangelho de Mateus 18, 15-20 lemos: «Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: ‘Se teu irmão chegar a pecar, vai e repreendê-o, a sós tu e ele. Se te escutar, terás ganhado um irmão’». Jesus fala de toda culpa; não restringe ao campo apenas do que se comete contra nós. Neste último caso, de fato, é praticamente impossível distinguir se o que nos move é o zelo pela verdade ou nosso amor próprio ferido. Em todo caso, seria mais uma autodefesa que uma correção fraterna. Quando a falta é contra nós, o primeiro dever não é a correção, mas o perdão.

Por que Jesus diz: «repreende-o a sós»? Antes de tudo, por respeito ao bom nome do irmão, à sua dignidade. O pior seria pretender corrigir um homem na presença da sua esposa, ou uma mulher na presença do seu marido; um pai diante de seus filhos, um professor na presença dos seus alunos, um superior diante dos seus subordinados. Isto é, na presença das pessoas cujo respeito e estima para alguém importa mais. O assunto se converte imediatamente em um processo público. Será muito difícil que a pessoa aceite de bom grado a correção.

Ele diz «a sós tu e ele» também para dar à pessoa a possibilidade de defender-se e explicar sua própria ação com toda liberdade. Muitas vezes, com efeito, aquilo que para um observador externo parece uma culpa, na intenção de quem a cometeu não o é. Uma explicação sincera dissipa muitos mal-entendidos. Mas isso deixa de ser possível quando o tema é conhecido por muitos.

Quando por qualquer motivo não é possível corrigir fraternalmente, a sós, na presença da pessoa que errou, há algo que se deve evitar absolutamente: a divulgação, sem necessidade, da culpa do irmão, falar mal dele ou inclusive caluniá-lo, dando por provado aquilo que não o é ou exagerando a culpa. «Não faleis mal uns dos outros», diz a Escritura (Tiago 4, 11). A fofoca não é menos mal ou menos grave só porque agora é chamada de «gossip».

Uma vez uma mulher foi se confessar com São Felipe Néri, acusando-o de ter falado mal de algumas pessoas. O santo a absolveu, mas lhe pôs uma estranha penitência. Disse-lhe que fosse para casa, pegasse uma galinha e voltasse onde ele estava, depenando-a pouco a pouco ao longo do caminho. Quando esteve novamente diante dele, ele lhe disse: «Agora volta para casa e recolhe uma por uma das penas que deixaste cair quando vinhas para cá». A mulher lhe mostrou a impossibilidade: o vento as havia dispersado. Aí é onde queria chegar São Felipe. «Vês – disse-lhe – que é impossível recolher as penas uma vez que o vento as levou? Da mesma forma é impossível retirar murmurações e calúnias, uma vez que saíram da boca.»

Voltando ao tema da correção, deve-se dizer que nem sempre depende de nós o bom resultado ao fazer uma correção (apesar de nossas melhores disposições, o outro pode não aceitar, obstinar-se); contudo, depende sempre e exclusivamente de nós o bom resultado... ao receber uma correção. De fato, a pessoa que «cometeu a culpa» bem poderá ser eu e quem corrige ser o outro: o marido, a mulher, o amigo, o irmão de comunidade.

Em resumo, não existe só a correção ativa, mas também a passiva; não só o dever de corrigir, mas também o dever de deixar-se corrigir. Mais ainda: aqui é onde se vê se alguém amadureceu o bastante como para corrigir os demais. Quem quer corrigir o outro deve estar disposto também a deixar-se corrigir. Quando vês alguém receber uma observação e responder com simplicidade: «Tens razão, obrigado por ter me dito isso!», admira-o: estás diante de um autêntico homem ou de uma autêntica mulher.

.. tira primeiro a trave do teu olho..."



(Mateus 7.5)



O que seria de nós sem os nossos inimigos, sem alguém em quem pudéssemos depositar todos os males? Será que muitos de nós conseguiríamos viver sem um outro personagem em quem miramos, apontamos o dedo e dizemos: ‘você é o culpado’?

Geralmente quando refletimos sobre os problemas pessoais ou do mundo, saímos à caça dos causadores dos problemas, e é óbvio que não nos incluímos nesse grupo. Isso é bem nítido nas guerras, onde povos ou soldados são conduzidos a combater o inimigo comum, geralmente outro povo ou soldados também orientados nessa direção. Também nos conflitos religiosos os inimigos são importantes, pois, como justificar determinadas atitudes com perfil claramente interesseiro se não houver um inimigo ‘maligno’ do outro lado, deixando Deus do nosso lado?

Além disso, o inimigo também é importante nas questões pessoais. É muito mais fácil colocar sobre o outro a culpa de tudo, do que ver-nos como parte dos problemas e termos do que nos posicionar, e, para isso, termos que fazer uma avaliação de nós mesmos.

Penso que é isso que o texto bíblico fala: "...Tira primeiro a trave do teu olho", pois "... como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o cisco do teu olho, quando tens a trave no teu?"

No Evangelho, Jesus se dirige àqueles que usavam o rigor da lei religiosa para punir a mínima coisa naqueles que não se conduziam conforme o esperado, mas não observavam o poço de incoerência em que suas próprias vidas estavam mergulhadas. Sugere até mesmo que a trave no olho fazia com que eles vissem incorretamente o cisco no olho do outro: "...tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o cisco do olho de teu irmão".

Como conclusão poderíamos dizer que o texto acima sugere que devamos fazer avaliações constantes, avaliações sobre nós mesmos, sobre nossa religião, sobre nossas crenças, idéias e valores. Isso é avaliar, é olhar para si mesmo sem medo do que será visto. Temo que poucos tenham a coragem de fazer isso, poucos seguem esse mandamento de Jesus, preferindo buscar um inimigo para neles projetar suas podridões escondidas. Daí tantas divisões políticas, religiosas e pessoais, pois é mais fácil ver o cisco no olho do outro.

Jornal Metodista