terça-feira, 10 de maio de 2011

A VIDA PERDIDA DO CORAÇÃO





Qual é o estado de seu coração hoje? Que pergunta difícil e in¬cómoda! Se não pararmos para refletir sobre isso a tempo, podemos nos sentir esquisitos ou nervosos.
No meio da correria e dos anos de serviço, uma voz grita den¬tro nós: "Alguma coisa está faltando no meio de tudo isto. Há algo mais...". Você tem sede? Escute seu coração! Ouça-me: realmente falta alguma coisa na nossa corrida frenética. Você deseja experi¬mentar um amor maravilhoso, uma grande aventura. Você foi cria¬do para algo além. E sabe disso!
Abafamos essa voz de diversas formas: o serviço, o trabalho, a correria, o medo, o racional tomando conta de nós, os cuidados desta vida, ou ainda de outras maneiras. E, abafando a voz do cora¬ção, divorciamos nossa vida interior da exterior. Protegemo-nos mantendo certa distância das pessoas, até entre nós e nosso próprio coração, escondendo o agnosticismo prático que vivemos, já que separamos nossa vida interior da exterior. E essa separação é o cami¬nho para a morte.
"Acima de tudo, guarde o seu coração pois dele depende toda a sua vida" (Pv 4.23). Perder nosso coração é perder tudo. E essa perda descreve a maioria dos homens e mulheres de nossos dias. Não são apenas o vício, o caso, a depressão e a dor emocional que nos levam a essa perda! A correria, o ativismo e a compulsão, que não nos deixam parar, ditam uma triste realidade para a maioria de nós: estamos vivendo apenas para sobreviver. Debaixo de tudo isso, sentimo-nos inquietos, cansados e vulneráveis.
Desde cedo, a vida nos ensina que devemos ignorar nosso cora¬ção e não acreditar nele. Ignorando-o, começamos uma vida dupla. Na externa, criamos uma identidade que a maioria das pessoas co¬nhece, sem saber quem nós somos de verdade. Sob essa aparência, vivemos da fonte de responsabilidade e obrigações, respondemos às expectativas das pessoas ao nosso redor — "Eu preciso fazer isso" —, em vez de viver da fonte do desejo — "Eu quero fazer isso". A administração de nosso tempo toma o lugar de experimentar o mistério da vida. Somos ensinados a aceitar três passos para um casamento feliz, cinco formas de ter um retorno melhor dos nossos investimentos e sete hábitos para o sucesso.
A comunhão com Deus é substituída por atividades para ele. Se voltássemos a ouvir com sensibilidade, estaríamos mais atentos ao romance sagrado que nos chama através de nosso coração a cada momento. Sussurra para nós através do vento, convida-nos por meio do riso dos bons amigos, estende-se para nós pelo toque de alguém que nos ama.
O romance está presente até nos momentos de maior sofrimen¬to: a doença de uma criança, a falência de um casamento, a perda de um amigo. Temos saudade da intimidade, da formosura e da aventura. E esse profundo desejo é a parte mais poderosa de qual¬quer personalidade humana, o combustível da busca do significa¬do, de ser saudável, o sentido de estar verdadeiramente vivo. Não importa como descrevemos esse profundo anseio, ele é a coisa mais fundamental dentro de nós, o cerne do nosso coração, a paixão da nossa vida.
A voz que nos chama nesse lugar não é nenhuma outra, senão a de Deus. Perdemos a habilidade de ouvir a voz dele quando perdemos contato com nosso coração. A verdadeira história de cada um de nós não é a história que as pessoas vêem, a externa. E a jornada de nosso coração. É trágico para qualquer pessoa perder o contato com a vida do seu coração, isto é, a vida interior. Isso se torna mais triste ainda quando acontece conosco, que conhecemos a voz do Bom Pastor, Jesus de Nazaré.
Muitos de nós perderam o fogo do primeiro amor no turbilhão do serviço cristão e das tantas atividades que nos engolem e, assim, passaram a perder o romance. Começamos a sentir que nossa fé é apenas uma série de problemas a serem resolvidos, ou princípios a serem dominados, antes de podermos entrar na vida abundante que Jesus nos prometeu. Mudamos nossa vida espiritual para o mundo externo de atividades e, em nosso interior, ficamos desnor¬teados, levados pelas ondas passageiras.
Acima de tudo, a vida cristã é um romance do coração. Não pode ser administrada com passos e programas. Não pode ser vi¬vida exclusivamente como um código moral que leva à justiça. Res¬pondendo a um especialista em coisas religiosas que lhe perguntou como obter vida real, Jesus fez outra pergunta:
"O que está escrito na Lei?", respondeu Jesus. "Como você a lê?" Ele respondeu: 'Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu cora¬ção, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento' e 'Ame o seu próximo como a si mesmo' ". Disse Jesus: "Você respondeu corretamente. Faça isso e viverá".
O que interessa a Deus é a nossa vida interior. Nosso coração é a chave para a vida cristã. Num dos maiores convites jamais ofere¬cidos ao homem, Jesus se colocou de pé, no meio da multidão, em Jerusalém, e clamou: "Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva" (Jo 7.37,38).
Se não atentarmos para a sede da nossa alma, seu convite não significará nada. Com o passar dos anos, achamos que ele não nos chama mais através da sede do coração. Como os gálatas, que Paulo repreendeu por terem se esquecido de como chegaram a Jesus, des¬cobrimos que alguma coisa, ou pessoa, nos seduziu para voltarmos à vida externa e à performance como o caminho da salvação.

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